A primeira mulher a operar VEs


 

Artigo publicado na BlueAuto NOV2018

Enquadramento

Em 2017 em parceria com a Polivalor, apostamos em formação, com o intuito de ajudar mecânicos tradicionais e outros profissionais a adquirirem conhecimentos para operar veículos eléctricos e Híbridos com formação especializada e certificada. No decorrer das várias formações, constatamos que o automóvel ainda é um universo masculino, pois não tivemos uma única participação feminina, nas várias centenas de formandos.

Sendo os veículos eléctricos, uma tecnologia limpa e um caminho para um futuro mais sustentável, quisemos mudar o paradigma e encontrar a primeira mulher que estivesse disposta a arregaçar mangas e a trabalhar na área.

Quando lançamos a iniciativa, esperávamos menos de uma dezena de candidaturas, mas de repente fomos confrontados com um número muito expressivo de candidatas. Esse número inesperado de candidatas, fez que tivéssemos de construir um processo de selecção mais elaborado, que o que estava pensado originalmente.

Escolhemos a Ana Sofia, pois gostamos da atitude e por ter bases mínimas para entrar neste ecossistema. A Ana fez os 3 níveis de formação e encontra-se presentemente a realizar um estágio profissional na EVolution.

Desenvolvimento

Confesso que tive receio que a iniciativa embora com boas intenções, não corresse bem. Felizmente enganei-me, a Ana aprendeu muito, ganhou confiança e o respeito dos colegas, o progresso é notório e algo que me enche de orgulho por ter proporcionado uma nova carreira a alguém, que provavelmente não iria estar a trabalhar nesta área.

Uma coisa que deixamos claro, desde o inicio, é que a Ana iria ser avaliada pela sua competência e isso é um ponto importante pois ela conquistou o seu espaço por mérito próprio.

João Guerra, Director de marketing ZEEV/EVolution

 

ENTREVISTA com Ana Sofia

Porquê esta especialização em VE?

Para ser sincera nunca pensei que me fosse especializar nesta área. No entanto, durante o meu curso de Engenharia de Energia e Ambiente na Universidade de Lisboa fiquei muito mais sensibilizada para os problemas que enfrentamos a nível energético e ambiental como sociedade.

Foi acidentalmente quando me comecei a especializar mais em baterias de alta tensão que comecei a dar mais importância aos VEs e comecei a ganhar mais interesse na área. Quando entrei na EVolution, apaixonei-me pelo trabalho e agora não penso em me focar noutra área!

Tal como muitos outros, sinto alguma responsabilidade em tornar o mundo um lugar melhor, e mais verde para todos. E isso passa também por nos adaptarmos todos à mobilidade elétrica.

Como se sente uma mulher num meio tradicionalmente mais masculino?

No inicio achei que poderia não conseguir adaptar-me bem ao ambiente. E tinha algum receio de não ser bem recebida. No entanto nunca me senti mal, senti-me logo à partida bastante confortável porque nunca me trataram de forma diferente. Às vezes sinto-me até um pouco mais homem que mulher por não existir tanto a diferenciação.

Pelo contrário, no mundo exterior, sou tratada de forma ligeiramente diferente. As pessoas acham sempre interessante que esteja nesta área, e aceitam isso de forma positiva, e querem sempre saber qual é a minha opinião. Embora muitas vezes esse interesse seja mais por eu ser mulher (e ter uma opinião que possa ser diferente do homem) e não por ser uma trabalhadora na área.

Mas em maioria, tem sido uma transição muito positiva na minha vida.

E como reagiram e reagem os seus colegas a uma mulher a fazer o mesmo trabalho tão especializado como este, sabendo dessa associação que quase todos farão de que a mecânica é claramente um mundo mais masculino?

Os meus colegas, felizmente nunca me trataram de forma diferente. Sempre me ajudaram quando precisei, especialmente agora que é um período de constante aprendizagem. Nunca me trataram como uma mulher nem como um homem, apenas como uma colega igual aos restantes, e acho que isso é extremamente importante e ajudou logo a sentir-me mais confortável.

E, já agora, como reagem os clientes?

Quando entrei na EVolution, pensei  que ninguém ia dar por mim. Nunca pensei que fosse algo estranho ver uma mulher num ambiente de oficina. No entanto os clientes acham curioso. Nunca tive reações negativas, apenas alguns clientes que acham engraçado e um tanto curioso ver uma mulher a trabalhar numa oficina. No entanto não deixam de me reconhecer pelo que sou, e avaliar pela dedicação que tanto eu como o resto da equipa coloca em todos os trabalhos que realizamos

Basicamente, qual a diferença entre trabalhar num VE e na mecânica de um veículo tradicional, de motor a combustão?

O mais curioso é que nunca trabalhei com veículos tradicionais a combustão e portanto não consigo fazer uma comparação muito boa, no entanto, creio que os problemas mecânicos de um VE são muito menores que os problemas de um veículo a combustão. O VE é notoriamente mais simples de trabalhar que um veiculo a combustão, tendo problemas que acabam por ser mais simples de resolver. Uma coisa é certa, os veículos eléctricos são mais limpos.

Acha que qualquer colega seu, mecânico, poderá estar apto a trabalhar num VE?

Explique por favor aos nossos leitores a importância de uma especialização como a que a Ana Sofia fez?

Primeiramente acho que o trabalho que se faz no VE nem sempre é semelhante ao veículo a combustão. Embora de vez em quando nos apareça um veículo em que o problema é mesmo mecânico, o mais normal é que seja um problema elétrico ou até no sistema de alta tensão.

Um mecânico não está apto logo à priori a resolver qualquer problema num VE, mas definitivamente tem tudo para vir a estar apto depois de receber uma formação. Trabalhar com sistemas de alta tensão requer mais atenção ao que estamos a fazer, porque qualquer acidente que aconteça, a probabilidade de voltar a acontecer é praticamente nula. O formador costumava dizer “se se enganarem também só se enganam uma vez”, e é mesmo verdade. Não é só pela segurança mas porque precisamos de saber o que estamos a fazer para não causar danos ao sistema. É bastante importante saber verificar se o veículo está desligado da alta tensão, se não há fugas de corrente no sistema para que possamos trabalhar em segurança.

Que tipos de intervenção são as mais comuns num VE?

A maior parte das pessoas que visita a área do service é mais para fazer uma manutenção ou revisão. Embora também nos apareçam alguns veículos com problemas para resolver. Embora sejam problemas mais simples que os dos carros a combustão.

A Ana Sofia sabe se há mais mulheres especializadas em VE em Portugal? E lá fora?

Não conheço muita gente na área (homens ou mulheres) mas acredito que hajam muitas mais que estejam interessadas, ainda que seja uma área ainda muito sob o domínio do homem.

Na minha opinião, apesar de não existirem tantas mulheres interessadas em automóveis como homens, os veículos elétricos acabam por fascinar mais na parte de elétrica e de armazenamento energético, que já pode ser um tema interessante para mulheres em engenharia. Além disto, é uma área que, por estar em constante transformação e evolução se torna logo muito mais interessante. Muitas vezes o interesse pode não estar no carro em si – mais comum nos homens – mas sim na engenharia de um veículo elétrico.